sexta-feira, novembro 01, 2013

Um amor reformado

Lutero e Catarina_por Kamilla Domingues

O dia 31 de outubro de 1517, sem dúvidas, foi um dos dias mais gloriosos da história da Igreja: 95 teses eram fixadas nas portas da capela de Wittemberg por Martinho Lutero. Um “convite” a discussão com teólogos católicos, em defesa da verdade bíblica, sobre temas como indulgências, penitências e salvação pela fé.

Existe beleza rompendo com força nesse dia. A graça da cruz com violência impulsionava Lutero a agir. Existia cheiro de morte nesse dia. Lutero ao dar esse passo, desafiava a autoridade maior da época.

Tenho a mais profunda admiração por Lutero. Por sua coragem em defender a verdade das Sagradas Escrituras. Oxalá se levantassem novos Luteros hoje!

Eu sempre fui uma curiosa sobre a vida desse ex-padre alemão. Ler sobre seus feitos, sua vida e a reforma sempre foi um dos meus passatempos favoritos.

Outro fato sobre Lutero que sempre me chamou a atenção e me fazia (e faz) passar horas “fuçando” pelo Google é sua Catarina Von Bora. Ainda pequena eu ganhei um livrinho que se chamava “10 meninas que mudaram o mundo”, e ali fui apresentada a ela. Sim! A Sra. Lutero foi uma menina que mudou o mundo. Ela tem mudado o meu mundo.
           
Um dia chegou à minha mão, umas páginas em pdf, de um livro que seria lançado sobre cartas de amor dos grandes nomes da história da Igreja Protestante. Nunca achei esse livro pra comprar. Mas, felizmente as poucas páginas disponíveis online, era sobre as cartas de Lutero para Catarina. A partir daí, “investigar” sobre os dois, e ler sobre a reforma ganhava um tom a mais.

Já faz um tempo que tenho lutado pra reformar o meu conceito de amor. Acabar com as indulgências Hollywoodianas e voltar pra essência bíblica da questão! Porque então, não olhar para os reformadores e aprender sobre isso também com eles? Assim como eles orientaram a Igreja a voltar seus corações para verdades Bíblicas no movimento da Reforma, estou segura de que podem nos ensinar, meninas, a reformar também nosso conceito de amor. Como irmãos mais velhos, na caminhada cristã, suas vidas podem refletir princípios de Deus para nós ainda hoje.

Enquanto ficamos paradas, esperando um click de filmes acontecerem entre nós e o garoto do momento, e somos alimentadas por essa maneira do amor acontecer a cada sessão da tarde, a cada lançamento no cinema... Lutero e Catarina nos ensinam sobre um amor que nasce por uma causa antes mesmo que existisse uma avassaladora paixão. Vários relatos históricos sobre o casamento deles expressam a evolução do amor na vida do casal. A história de amor de ambos não foi impressionante desde o princípio, mas o amor foi crescendo”. Isso se observa nas cartas que Lutero escrevia para sua amada. Há quem diga que o casamento do ex-padre com a ex-freira se deu não como o clímax de um namoro e um “louco amor”, mas basicamente por conveniência e disso se desenvolveu um genuíno sentimento.  Segundo o olhar atual isso pode soar frio e arcaico. Eu mesma pensei isso várias vezes. Mas, hoje, pela graça de Cristo, eu posso enxergar no exemplo de Lutero e Catarina que o amor não tem pressa! Que quando firmado na causa de Cristo (ainda que por conveniência, como alguns pensem) é o caminho sublime do amor.

Olhem só o que eu li num artigo chamado Martinho Lutero: Ser humano, de Duncan Alexander Reily:
Logo após o casamento, Martino escreveu a um amigo: “Não estou loucamente apaixonado, mas gosto da minha esposa”. Um ano mais tarde ele disse: “Minha esposa é submissa, acomodatícia (se adapta facilmente) e afável, além de tudo que ousava esperar; não trocaria minha pobreza pela riqueza de Crespo”. Em 1538, após 13 anos de casamento, ele escreveu: “Se perdesse minha Kathy, não tomaria outra esposa, mesmo que me oferecessem uma rainha”.

Outro relato acrescenta informações ao episódio:

Escrevendo a um amigo ele declarou: “Existem algumas coisas com as quais precisamos nos acostumar no primeiro ano de casamento; o sujeito acorda de manhã e encontra um par de tranças postiças no travesseiro, onde antes não havia nada!” Entretanto, após um ano de casado, escreveu: “Minha Kathe é, em tudo, tão dedicada e encantadora que eu não trocaria minha pobreza pelas maiores riquezas do mundo”. E mais tarde: “Não há na terra um laço tão doce, nem uma separação mais amarga como a que ocorre num bom casamento”. Finalmente, é bem conhecida sua declaração: “Não há relação mais bela, mais amável e mais desejável, nem comunhão e companhia mais agradável do que a de marido e mulher num casamento feliz”.

Reily ainda diz:
As referências a Catarina na volumosa correspondência de Lutero são frequentes e iluminadoras. Muitas vezes ele se referia a ela, ao escrever em latim, como sua caríssima; em alemão, não raro, como Meine Harziliebe (o amor do meu coração). Ele brincava com ela e também a respeito dela, muitas vezes em jogos de palavras, reveladoras de um relacionamento ao mesmo tempo sadio e afetuoso. Logo após seu matrimonio, Lutero foi convidado às núpcias de Jorge Spalatin e sua noiva. Ele escreveu a Spalatin, em 11 de novembro de 1525, da sua impossibilidade de estar presente principalmente por causa da oposição dos príncipes gerada por sua parte no episódio das monjas de Nimschen. Diz ele: Eis a razão que não posso visita-lo, estou impedido pelas lágrimas da minha Catarina, a qual crê que você só quer me colocar em perigo. Lutero escreveu em latim, e a palavra Catarina traduzida (Katenae) é muito semelhante a palavra cadeias em latim! Na verdade ele fazia o mesmo jogo de palavras em alemão (Kathe – Kathy; Katte – cadeias). Lutero raramente chamava sua esposa de Catarina, os apelidos que empregou são ao mesmo tempo jocosos e cheios de apreciação. Ele a apelidou de  A Estrela da Manhã de Wittemberg. Ora em Apocalipse 22:16, é o próprio Jesus quem diz Eu sou a resplandecente estrela da manhã. Lutero parece, ao mesmo tempo valorizar sua mulher, referindo-se ao seu hábito de levantar-se as quatro da manhã no verão, e as cinco no inverno! Muitas vezes, ela a tratou de Senhor ao invés de Senhora; atrás das brincadeiras está um profundo respeito pela capacidade de Catarina de gerir a enorme casa pastoral, a qual era na verdade, o velho mosteiro, onde o próprio Martinho Lutero havia morado quando monge antes do casamento.

Vocês conseguem perceber como hoje, nos é mais comum um caminho inverso? Primeiro a paixão avassaladora, gerada pela “química que rola”, depois um namoro que ardente resulta em casamento, onde só então (e talvez) se busque uma causa para se viver como casal (e que infelizmente as vezes se resume a quantia de dinheiro que será necessária para pagar os tantos metros quadrados do apartamento escolhido, ou a qual carro novo teremos). Então os anos vão passando e o amor esfria.  Sim! Esse modelo é que nos tem sido ensinado por Hollywood, pela sociedade, pelos nossos pais, pelas nossas igrejas.

Lutero e Catarina nos ensinam um caminho mais excelente, um caminho que ao meu ver se assemelha com a Bíblia. Entendam que eu não estou dizendo que a partir de hoje nossos casamentos devem ser arranjados, nascerem sem nenhum pingo de afinidade, atração física, romance... O que eu quero chamar a atenção é simplesmente à seguinte questão: o amor que sonhamos, idealizamos, esperamos, vivemos, é mais Hollywoodiano ou Bíblico? Talvez seja necessário que reformemos nosso amor.

Muitas outras coisas são possíveis aprender com o casal de reformadores.  Catarina é um exemplo de mulher cristã: por várias vezes cuidou de seu Lutero nas horas de depressão, sentando-se ao seu lado e lendo a Bíblia para ele. Martinho sempre a pastoreava, dedicando-se a momentos devocionais com ela e lhe sugerindo a memorização de versículos.  Conta-se que, certa vez, Lutero estava bastante deprimido. Não se alimentava e passava os dias trancafiado em seu quarto. Estava cheio de dúvidas sobre se o que fazia era ou não da vontade de Deus. Catarina vestiu-se de preto e entrou subitamente no aposento. Lutero tomou grande susto, pensando que alguém tinha morrido. Catarina respondeu: “Ao que parece, Deus morreu!” A reação de Lutero foi imediata: levantou-se e saiu do quarto, agradecendo à esposa por fazê-lo retornar à vida.

Como disse um dos seus biógrafos, “ela não escreveu nenhum livro nem jamais pregou um único sermão, mas seu inestimável auxílio possibilitou que seu marido fizesse tudo isso como poucos na história da igreja”. A Sra. Lutero entendia o alto risco de se casar com o líder da reforma protestante, assim como o próprio Lutero.

Há inúmeros relatos que contam as firmes afirmações de Lutero expressando sua decisão de não querer casar-se em virtude disso ter como consequência o alto risco que colocaria uma mulher, já que sua vida tornara-se uma constante de estudos, pregações, perseguição e fugas.  Porém, também há relatos de uma jovem freira que ao conhecer sobre as pregações de um padre que afirmava a salvação pela fé, aventurou-se fugindo do convento e indo atrás desse novo ensino. Uma jovem que enquanto via todas suas amigas se casando, decidida dizia: Só me casarei se for com o Dr. Lutero! E assim, parece que Catarina fez o caminho até o coração do Reformador.

Martinho até tentou que Catarina se casasse com outros bons partidos, mas ela repetidamente afirmava na frente dele: Lutero, só me casarei se for com você!

E assim foi. Na noite de núpcias, Catarina abriu sua casa para monges fugitivos e abriu mão do “enfim sós”. Nos momentos que Lutero escondia-se hora para traduzir a Bíblia, hora para preservar sua vida, Catarina vendia suas louças, construía um celeiro, cultivava hortas e canteiros de plantas medicinais, operava uma cervejaria, cuidava de galinhas, vacas leiteiras e  de uma criação de peixes para criar seus filhos, os onze órfãos que abrigavam e os diversos jovens que abandonavam o mosteiro pela causa da reforma da Igreja. Martinho a dava total liberdade para participar e opinar, nos longos debates que aconteciam na sua casa sobre a Reforma Protestante. Ele também se certificava de deixar um ambiente seguro para sua família e sua Catariana quando viajava, delegando funções aos seus hóspedes para que auxiliassem sua esposa e a ajudassem em tudo que fosse necessário.  Ele preocupava-se com o bem estar da confiante Catarina, principalmente quanto às provisões financeiras, ela então lhe respondia: Não tema! Vá e pregue. O Senhor nos proverá todo o necessário!  Lutero dia a dia foi apaixonando-se pela sua Catarina e sua vida terminou no ápice da paixão pela sua esposa.

Um dos últimos discursos de Lutero sobre Catarina foi escrito a um amigo: “Minha querida Kate me mantém jovem, e em boa forma também. Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia vierem a escrever a história de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso…”.

Hoje Lutero, celebramos a reforma e nos lembramos de sua amada Catarina! Como cristã e como mulher, agradeço a Deus por conhecer a história da família que vocês formaram. Agradeço ao Senhor por me ensinar sobre a possiblidade de um amor que nasce por uma causa: a Dele. Que cresce sob sua rocha segura, e chega ao fim explodindo em paixão. Obrigada irmão Lutero e irmã Catarina, por renovarem minha esperança de que em Cristo posso ter uma família relevante para o Reino.  Lutero, obrigada por me lembrar sobre a importância de dar meu coração e meu amor a um homem que ama ao Senhor e sua Igreja, que vive a Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Gloria. Catarina, obrigada por me ensinar como uma dona de casa por mudar o mundo. Como cultivar uma horta, como cuidar dos filhos, como ser hospitaleira, desprendida, pode impulsionar meu futuro esposo a cumprir a missão que Deus o deu. Obrigada por lembrar-me da minha “sub-missão”! Hoje, se pudesse os abraçaria e os diria isso e muito mais. Na eternidade nos encontraremos!

Sobre a última declaração de Lutero a seu respeito, Catarina disse: “Tudo o que tenho feito se resume a simplesmente duas coisas: ser esposa e mãe, e tenho certeza que uma das mais felizes de toda a Alemanha!”.

Que comemoremos hoje a Reforma Protestante. Que comemoremos hoje, a possibilidade de viver um amor doador e apaixonado, segundo Cristo.

Feliz dia da Reforma Protestante. Feliz dia da Reforma do amor. 


*Aqui, aqui, aqui e aqui você pode ler mais sobre Lutero e Catarina!

9 comentários:

  1. Que coisa mais linda, ela é uma mulher virtuosa..

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  2. Que coisa mais linda, ela é uma mulher virtuosa..

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  3. Oie, não sabia que você tinha esse dom de escrever amiga!!! Que texto emocionante, informativo e real... o amor nos dias de hoje é difícil de encontrar, em sua forma mais simples e completa, os relacionamentos têm sido descartáveis.... mas na Palavra diz que nos finais dos dias o amor se esfriaria (todas as formas de amor) e isso é só mais um sinal da vinda breve do nosso amado Noivo!!! Amei o texto e agora vou ver o que mais tem por aqui no blog, bjs!

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  4. E eu agradeço a Deus e depois a você por ter a oportunidade de ler esse post! Me edificou, confortou, acalmou, e abriu meus horizontes. Às vezes a gente pensa em nossa função no Reino e pensamos logo em sermos boas ministras de louvor, de dança ou pregadoras. Mas hoje pude ver que Deus me quer para além disso. Algo que não necessariamente me faça aparecer, ou me dê um status diante de um povo, mas sim que com a minha ajuda aconteçam reformas, avivamento. Eu quero ser uma mãe e esposa para a glória de Deus!

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  5. Poxa, gostei taaaaaanto desse artigo. Parabéns por pensar assim. O mundo está tão carente de pessoas com essa mesma forma de raciocínio.

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  6. Também fico feliz e grata a Deus por permitir que eu tivesse acesso a essa postagem, que texto edificante, realmente edificante. Me alegro em saber que existem meninas que também pensam assim, que são poucas, mas que existem.
    Estou inconformada com o conceito e jeito de namoro que se faz hoje em dia, é lamentável saber que o elemento que leva casais a ficarem juntos é emoção.

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  7. Oi. Faz muito tempo que visito esse blog e é a primeira vez que comento. Só vim aqui pra agradecer a toda a equipe do Santa Menina que me ajudaram a fortalecer minha fé, pois estava fraca em espírito. Quero falar pra você que Deus reconhece todo o esforço que vocês tem para manter esse blog e ão desistam, porque a missão é maravilhosa: pregar o evangelho de Cristo. Eu agradeço ao Senhor pela vida de vocês, e vou orar por esse blog pra que ele possa transformar muitas vidas, como fez com a minha. A paz, princesas!

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  8. Você tem um dom de escrever incrível! Amei cada palavra e o jeito que foi escrito!
    Amei de verdade! Não sei nem o que falar uhsuahsuahs, concordo com tudo!
    Vem visitar o blog!
    Batom De Framboesa - Fan page
    Beijos e fique com Deus!

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